Em conversa com a Casa Banto, Tamara Franklin fala sobre a viagem transformadora a Gana, o videoclipe de “Mala”, o nascimento de “Midas” e os territórios afetivos que atravessam sua música.
Por Revista Banto
“Salve, Casa Banto. Eu sou Tamara Franklin e hoje a gente vai trocar uma ideia sobre trabalho, sobre a vida, sobre tudo. Vem comigo.”
É assim que Tamara Franklin abre a conversa. Com presença firme e fala atravessada por afeto, território e criação, a artista compartilha os caminhos que alimentam sua obra: a experiência transformadora em Gana, as referências musicais que atravessam sua escuta, o cotidiano da quebrada, as conversas com a família e os momentos de dúvida que também fazem parte do processo de viver de arte.
A viagem a Gana foi uma experiência transformadora para você. Como ela impactou sua forma de fazer música?
Foi uma viagem muito transformadora pra mim, por vários motivos. Acho que ter tido contato com cantores de Gana foi muito importante. Eu fui em um rolê que era tipo um mini festival, me apresentei com artistas de lá e tive a oportunidade de ter essa troca.
Também conheci um ritmo que se chama High Life, que bomba lá em Gana. Acho que isso mudou alguma coisa na minha forma de enxergar e de fazer música. Lá mesmo eu escrevi vários sons. Não sei pra quando, não sei como, mas está aí na agenda produzi-los.
Se você pudesse montar um festival dos sonhos, quem estaria no line-up?
Acho que eu faria um festival Brasil-Gana. Ia ser legal. Teria Sarah Sampp e Criola. Eu acho que faria um “Sarah Sampp convida Criola”. Valeria muito a pena ver as duas juntas, nessa troca, no palco.
Também teria Iza Sabino, DJ Capone, e artistas que conheci em Gana, como Baka Dabri e Francisca Azornu. Os dois com certeza estariam. Ohene também estaria.
Você tem um verso favorito em “Mala”?
Tenho sim. Em “Mala”, que é a terceira música que lancei mais recentemente, eu fecho a segunda estrofe falando:
“Eu sou o próprio abismo, então deixa que o mundo caia.”
Acho que esse é meu verso favorito.
Onde foi gravado o videoclipe de “Mala”?
Eu gravei esse clipe ali em Santa Tereza, atrás da Estação Santa Efigênia, se não me engano, perto das Torres Gêmeas, onde tem uma favelinha ali. A gente gravou com o apoio da Casa Gamarra, que é um circo, uma casa de imigrantes. Foi lá que eu gravei o clipe.
Isso foi um presente, porque foi uma equipe de pessoas que eu gosto muito e que já conhecem o trampo há muito tempo. São pessoas pra quem o trampo faz sentido e que fazem sentido pro trampo. Foi uma equipe bem restrita.
Minha mãe trabalhou nos looks, no styling — ela sempre brilha nisso. Minha irmã, Winy, fez a produção executiva. Também participaram Dona Beth, a Goya, e a Pérola, minha sobrinha, que aparece como a “negona no carona”. O Júlio César, da 100ERROSS, dirigiu. O pessoal do DISCRIMINADOS OPALA CLUB, com o Rodrigão, fortaleceu com o Opala. Foi um time de afetos.
“Midas” nasce de qual lugar?
“Midas” é de um momento em que eu estava muito puta, na verdade, com muitas coisas. Tem a ver com esse processo mesmo de ser artista: como viver de arte, como fazer o corre ser sustentável, batendo em portas e lidando com esse tanto de “não” que a gente precisa levar.
Foi um momento em que comecei a duvidar de mim. É muito difícil pra mim falar que pensei em parar, porque eu nunca pensei em parar. Mas existem esses momentos de briga com o que a gente faz.
Então “Midas” nasce desse lugar de querer repetir o que não era negociável, o que não poderia ser negociável pra mim: o meu valor. Até eu conseguir voltar a acreditar no meu valor e no valor do que eu estava fazendo.
Quais pessoas, conversas e territórios alimentam sua criação?
As pessoas que trocam comigo me atravessam muito. Tem um mano meu, o Salu, com quem eu cresci junto. Nossas trocas de ideia sempre agregam muita coisa. Inclusive, ele começa a primeira frase de “Mala”, numa sessão no estúdio em que a gente estava.
Também tem minhas conversas filosóficas com meu pai, minhas conversas sobre identidade preta com ele, minhas trocas com minha mãe ouvindo a história dela.
E tem o cotidiano. Eu moro no Primeiro de Maio, então tem o próprio fluxo da quebrada, do território. Eu já passei por muitos territórios. Apesar de ser de Neves, estou muito enraizada e plantei uma sementinha em vários lugares da região metropolitana.
Acho que isso do real da vida inspira muito: o ônibus de manhã, a gata que fez um barraco na padaria, na fila… Tudo isso vai servindo. O cotidiano vai virando insight, inspiração.
Se pudesse escolher uma artista para uma colaboração, quem seria?
Eu escolheria Sampa The Great. Ela é uma rapper estadunidense e tem umas músicas muito massas. Tem uma parada mais afro, que mexe com o boom bap, e acho que tem tudo a ver com meu trabalho também.
Qual foi o momento mais impactante da viagem a Gana?
O momento mais impactante foi a cerimônia de renomeação, em que uma família real, o rei, a rainha e toda a corte real do clã Aduana me receberam no clã. Eles me rebatizaram com um nome Ashanti e deram outro significado pra essa viagem. Um significado de retorno mesmo.
Foi um momento muito marcante, muito emocionante pra mim.
O que vem agora na sua trajetória musical?
A gente está com algumas coisas na manga. Essas três músicas que lancei não necessariamente têm tanto a ver com o momento, com a proposta criativa em que estou agora. Elas têm muitos anos, eu fiz muito em palco e tal.
Acho que venho com um docinho a mais no próximo trabalho. Um melzinho. Falando de amorzinho e outras coisas, outras bobagens relevantes.
Para fechar, onde as pessoas podem acompanhar seu trabalho?
Muito obrigada. Foi um prazer estar aqui, trocar essa ideia com a Casa Banto. Ouçam meu trampo, ouçam minhas músicas, meus filhotes musicais.
Está no Spotify, na Deezer. Tem videoclipe quentíssimo de “Mala” no YouTube. Em todas as vitrines virtuais vocês me acham. Me escutem lá. Beijo.