Dark Mode Light Mode

Bantocast: MC Soffia fala sobre rap, educação antirracista e a força de crescer cercada por referências negras

Começar uma carreira artística ainda na infância fez com que MC Soffia crescesse diante do público ao mesmo tempo em que descobria a dimensão política das próprias letras. O que inicialmente surgia de forma espontânea, a partir das experiências de uma menina negra que não se via representada nos filmes, nas histórias e em diferentes espaços, passou a ganhar novos significados conforme a artista amadurecia.

Em conversa com Ailton Vieira para o Bantocast, podcast da Revista Banto, Soffia relembrou que começou a escrever e cantar muito nova. Naquele momento, a música ainda era, sobretudo, uma extensão de suas brincadeiras e sonhos. Foi durante a pré-adolescência que ela começou a compreender com maior profundidade os temas presentes nas próprias composições.

A ausência de princesas negras nas produções que assistia, por exemplo, transformava-se em matéria para suas músicas. O mesmo acontecia diante das expectativas impostas às meninas sobre brincadeiras, comportamento e identidade. Ao crescer, Soffia passou a perceber a dimensão que aquelas letras tinham adquirido para outras crianças negras.

“Tem muitas que ficaram adultas junto comigo e muitas que mostram para as filhas minhas canções”, conta a artista ao refletir sobre uma trajetória que começou como sonho e, com o passar dos anos, também se tornou profissão. Mesmo com o amadurecimento e as novas responsabilidades, ela afirma que o trabalho não perdeu completamente o caráter de realização pessoal que existia desde a infância.

Hip Hop como conhecimento

Na entrevista, MC Soffia também defende o Hip Hop como espaço de educação popular. Ao falar sobre os elementos que compõem a cultura, grafitti, breaking, MC e DJ, a artista acrescenta o conhecimento como elemento fundamental dessa construção.

Para ela, o Hip Hop historicamente esteve presente nas periferias não apenas como entretenimento, mas como linguagem capaz de falar sobre trabalho, estudo, desigualdade, perspectivas de futuro e realidade social.

Essa relação entre música e educação também atravessa diretamente sua própria trajetória.

Soffia lembra que suas canções passaram a ser utilizadas por professores em sala de aula e chegaram aos livros didáticos. Segundo a artista, suas músicas aparecem em materiais de disciplinas como Português, Inglês e História. Para ela, essa circulação evidencia a capacidade que o rap teve de abrir caminhos que ultrapassam a indústria musical.

“O rap […] foi a minha porta-voz, onde eu encontrei para poder me expressar”, afirma.

Mais do que ocupar a escola, portanto, sua produção também propõe outra possibilidade de repertório para crianças e adolescentes: uma em que pessoas negras aparecem como protagonistas de suas próprias narrativas.

Autoestima começa dentro de casa

Ao falar sobre consciência racial, MC Soffia aponta a família como uma das referências mais importantes de sua formação.

Antes mesmo das influências musicais, ela conta ter crescido em um ambiente no qual ser uma menina negra nunca foi apresentado como impedimento para seus sonhos.

Em vez de ouvir que determinados espaços não lhe pertenciam, Soffia relata ter crescido sob uma lógica oposta: a de que poderia perseguir aquilo que desejasse. Essa construção familiar ajudou a fortalecer sua autoestima e alimentou ambições que, posteriormente, se materializaram em diferentes momentos da carreira.

Na música, a artista cita nomes negros que fizeram parte de suas referências, entre eles Elza Soares, Dona Ivone Lara, Karol Conká, Beyoncé e Rihanna. Entretanto, quando o assunto é consciência racial, ela reforça que a principal base veio de casa.

Crescer sem abrir mão da infância

Construir uma carreira artística tão cedo também trouxe uma preocupação específica para sua família: garantir que o sucesso não significasse abrir mão da infância.

Soffia conta que sua mãe esteve presente desde o início da trajetória e assumiu também o papel de empresária. Uma das decisões tomadas pela família foi não estabelecer determinados vínculos com gravadoras quando ela ainda era criança, justamente pelo receio de que a artista fosse tratada apenas como produto ou tivesse sua carreira interrompida segundo interesses comerciais.

A preocupação envolvia permitir que ela continuasse brincando, estudando e vivendo experiências próprias da idade. A artista também lembra que suas apresentações durante a infância aconteciam com os cuidados legais necessários, incluindo autorização para os shows. Conforme cresceu, sua linguagem artística também foi se transformando e temas e palavras que não cabiam naquele primeiro momento passaram a integrar sua produção.

Essa escolha ajuda a explicar uma particularidade de sua trajetória: MC Soffia não fala sobre a infância apenas como o período em que começou a carreira, mas como uma experiência que sua família procurou ativamente preservar.

Música, moda e novos caminhos

Hoje, a música permanece como eixo central, mas Soffia já pensa sua atuação para além dela.

Na conversa, a artista conta que mantém um brechó ao lado da mãe e demonstra interesse em aprofundar a relação entre música e moda. Também menciona experiências anteriores como atriz e o desejo de continuar explorando o audiovisual e outros empreendimentos.

Na música, o foco está em ampliar a circulação de Sofisticada, álbum de nove faixas lançado pela artista. Além dos próprios lançamentos, ela conta estar trabalhando em novas participações com outros artistas e afirma desejar estruturar uma turnê dedicada ao projeto.

Sem ignorar o tempo necessário para que um trabalho cresça, ela resume esse momento como um processo construído “um degrau de cada vez”.

Essa talvez seja também uma boa síntese de sua trajetória. Da menina que escrevia sobre aquilo que não encontrava nas telas à artista que hoje vê suas próprias músicas circularem em escolas e livros didáticos, MC Soffia construiu uma carreira em que representatividade não aparece apenas como discurso: ela acompanha a própria experiência de crescer, criar e abrir caminhos.

Assista ao Bantocast

A conversa completa entre MC Soffia e Ailton Vieira está disponível no Bantocast, podcast da Revista Banto produzido pela Banto Casa Criativa. No episódio, eles conversam sobre carreira, Hip Hop, educação, família, autoestima negra, infância na música e os próximos projetos da artista.

Assista ao episódio completo no canal da Banto Casa Criativa no YouTube:

Add a comment Add a comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Previous Post
Fest'Arte 2026

Fest'Arte 2026 leva teatro, música e economia criativa em quatro dias de programação gratuita a Barroso (MG)

Next Post
programação infantil do Festival FARRA

Festival FARRA encerra edição no Carlos Prates com oficina de graffiti e lazer infantil gratuito